25/06/2026
O retorno ao presencial e o redesenho do trabalho no pós-pandemia
Consultor empresarial comenta movimentos na estrutura do formato de trabalho adotado pelas empresas brasileiras nos últimos anos
O mercado de trabalho brasileiro atravessa uma nova fase de reorganização após o período mais intenso da transformação digital acelerada pela pandemia. O trabalho remoto, que começou como uma solução emergencial, evoluiu para modelos híbridos amplamente adotados, mas agora começa a apresentar sinais de retração.
Um levantamento da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) mostra que, em 2025, o modelo presencial voltou a ser predominante no país, adotado por 56,5% das empresas. O modelo híbrido aparece com 38,6% de adesão, enquanto o remoto representa apenas 4,9%. Em comparação com 2024, quando presencial e híbrido dividiam praticamente o mesmo espaço (46% cada), observa-se uma mudança relevante na forma como as organizações estão estruturando suas operações.
Mais do que uma simples reversão de tendência, esse movimento indica uma fase de maturação das decisões corporativas sobre modelos de trabalho. Segundo o consultor empresarial Roberto Vilela, o cenário atual não representa um fim do home office, mas, sim, o encerramento de um ciclo marcado por decisões rápidas e, muitas vezes, experimentais.
“Durante a pandemia, as empresas precisaram adotar o modelo remoto por necessidade. Agora, elas estão revisitando essas escolhas com mais critério, avaliando impactos na produtividade, na cultura organizacional e na integração dos times”, explica.
Esse processo de revisão tem levado muitas organizações a reequilibrarem suas estruturas, especialmente aquelas que enfrentaram dificuldades relacionadas à comunicação interna, alinhamento de equipes e manutenção da cultura corporativa em ambientes totalmente virtuais.
Por que o presencial volta a ganhar força
Segundo Vilela, o retorno parcial ou total ao modelo presencial não pode ser atribuído a um único fator. Ele resulta de uma combinação de elementos que variam conforme o setor, o perfil da empresa e a maturidade digital da organização.
Entre os principais pontos estão: necessidade de maior integração entre equipes; fortalecimento da cultura organizacional; melhoria na supervisão de processos; desafios de engajamento no trabalho remoto prolongado; e, em alguns casos, queda na percepção de colaboração entre áreas.
Apesar da retomada do presencial, o modelo híbrido não está em declínio absoluto, mas em fase de ajustes. Na visão de Vilela, o híbrido tende a permanecer como solução intermediária para empresas que buscam equilíbrio entre flexibilidade e controle operacional. “O híbrido não desaparece porque ele resolve um dilema: manter parte da flexibilidade conquistada pelos profissionais sem abrir mão da convivência presencial, que ainda é relevante para a cultura empresarial e as tomadas de decisão”, avalia.
Já o trabalho remoto integral tende a se concentrar em nichos específicos, especialmente em áreas com escassez de mão de obra qualificada, funções altamente técnicas ou equipes distribuídas globalmente.
Um novo equilíbrio do trabalho
O movimento atual aponta para algo mais amplo do que a escolha de modelos de trabalho, ele revela a busca das empresas por um novo equilíbrio entre eficiência, cultura e experiência do colaborador. Se, por um lado, o home office representou autonomia e ganho de flexibilidade, por outro trouxe desafios de gestão, pertencimento e conexão organizacional. O presencial, por sua vez, oferece maior integração, mas exige atenção redobrada à qualidade de vida e à adaptação das novas expectativas dos profissionais.
Para Roberto Vilela, o futuro do trabalho não será definido por um modelo único, mas por uma combinação cada vez mais personalizada de formatos. “Não existe mais uma resposta padrão. O modelo ideal depende do tipo de atividade, da maturidade da liderança e da cultura da empresa. O desafio agora não é escolher entre remoto, híbrido ou presencial, mas sim desenhar modelos coerentes com a realidade de cada negócio”, conclui.